E por falar em Mia Couto
Análises da obra do escritor.
quarta-feira, 24 de abril de 2013
A TRAJETÓRIA DA MEMÓRIA E DO ESQUECIMENTO NA NARRATIVA FEMININA NA OBRA “O OUTRO PÉ DA SEREIA” DE MIA COUTO
Por Ana Cristina Meneses de Sousa Brandim e
Jeannie da Silva Menezes
A obra “O outro pé da sereia”, do autor moçambicano Mia Couto1, é uma construção literária de armadilhas que subverte as nossas imagens sobre a África, realizando uma leitura do processo de descolonização portuguesa não base-ada nas “tradicionais” narrativas que sempre teimam em apontar as peripécias do colonizador seguidas de suas maldades cometidas contra o colonizado ou, de certa vontade quase tirânica do colonizador, que mina qualquer sinal de resistência do colonizado. A despeito de uma África marcada em nosso imaginário pela presença do misticismo e da paisagem exuberante, no romance desfilam personagens singu-lares para os quais o tempo representa a possibilidade de múltiplas viagens interio-res, que se cruzam no presente e no passado de Moçambique.
As linhas tênues que atravessam os tempos, personagens e paisagens na narrativa de Mia Couto se desdobram em torno de mais de quatrocentos anos e iniciam-se ainda no porto de Goa, no ano de 1560, quando D.Gonçalo, provincial dos jesuítas na Índia Portuguesa, monta uma expedição a fim de levar a fé cristã. Iniciava-se, desta forma, uma viagem sempre marcada pela presença da imagem de Nossa Senhora ou, como foi assimilada mais tarde, divindade africana das á-guas. O motivo da missão era o batismo na fé cristã de um Imperador negro, sobe-rano da corte do Império Monomotapa, cujos domínios, acreditavam, se estendiamaté ao Reino do Prestes João2. Este intento, que girava em torno da cobiça portu-guesa por um reino fictício, resultou no encontro com súditos e soberanos de reinos bem menos lendários dispersos pela África.
Tempos depois, em 2002, a personagem Mwadia Malunga encontra a imagem de Nossa Senhora sem um dos seus pés, próximo ao lugarejo denominado de Antigamente e decide, por indicação do marido e do curandeiro Lázaro, levá-la para uma cidadezinha conhecida como Vila Longe, em busca de um local mais a-propriado para aquela imagem. O tom quase epopéico desta trama não esconde as intenções do autor em falar sobre os caminhos e descaminhos que foram abertos a Moçambique, após sua descolonização, em 1975. VilaLonge é metáfora para Mo-çambique, em que se percebe que seus personagens, assim como o lugarejo, estão em ruínas e buscam saídas para os seus problemas históricos, não na memória oficial, inventora de enganos e de falsas promessas, mas nos caminhos tortuosos do esquecimento, pois como nos lembra o personagem revolucionário Arcanjo Mis-tura, em tom irônico, “como todos os outros da vila, o homem esquece para ter passado e mente para ter futuro” (COUTO, 2006, p.120).
Acreditamos que memória e esquecimento tecem disputas preferíveis pelo autor para enunciar seus dizeres, seus olhares sobre o processo de descoloni-zação de Moçambique. A memória e o esquecimento enviesados em sua obra fic-cional são faces opostas de um mesmo espelho, que revelam não só cumplicidades, mas também possibilidades que não se esgotam e servem de alinhavo entre as narrativas do romance. Segundo Ricoeur (2007), a memória é o mecanismo que significa o caráter passado daquilo que lembramos e o esquecimento seria o aves-so; a sombra da região iluminada da memória. Tais conotações oferecem à memó-ria um contorno de zona “clara” ou “iluminada”, onde as lembranças pululam em movimentos dispersos e incontrolados.
Esta dispersão e falta de controle revelam que a memória é afetada por diferentes impulsos, sejam aqueles relativos ao que é lembrado, sejam aqueles oportunizados pelas condições temporais. Neste sentido, sentimentos como sauda-de, nostalgia, tristeza, mágoa, compreendem aspectos da memória impulsionados pela vontade de lembrar. Mas, se a memória é extensão, é ato, o esquecimento éuma tentativa de apagar estes rastros ou de mantê-los em uma zona “reversível”, capaz de ser ativada somente quando houver atualização do passado no presente.
É diante desta complexidade que Mia Couto, utilizando-se de uma escri-ta poética e de um estilo irônico, possibilita o contato do leitor com nuances da vida humana, em que lembrar e esquecer se tornam instrumentos na construção de “entrelugares” (Bhabha, 1998), ou seja, espaços “outros” onde os sujeitos pro-curam alternativas culturais de convivência, criando e recriando outras possibilida-des e artimanhas que não seguem modelos ou tradições culturais imutáveis, mas inventam cotidianamente estratégias que possibilitam fugir aos estereótipos adqui-ridos e são desses entrelugares criados principalmente pelas personagens Mwadia e Dona Constança que aqui queremos tratar.
Segue o texto integral no link abaixo:
http://www.entrelugares.ufc.br/index.php?option=com_phocadownload&view=file&id=185:a-trajetoria-da-memoria-e-do-esquecimento-na-narrativa-feminina-na-obra-o-outro-pe-da-sereia-de-mia-couto&Itemid=12
terça-feira, 23 de abril de 2013
O CONTRABANDISTA DAS PALAVRAS, Helder Beja
O autor moçambicano regressa com “Jesusalém”, romance sobre
a loucura e a solidão dos homens e dos lugares. Mia couto diz-se
«honrado» por ser conhecido como inventor de palavras mas garante
que os seus livros vão mais além.
Estamos num combate de boxe: Mia Couto levanta-se, decidido,
para mais um assalto à Língua portuguesa. Não interessa quem
sai vitorioso do ringue mas, para que conste, é quase sempre o escritor.
Porque refaz, parte, inventa o idioma de Camões.
«Se eu ficar conhecido como um inventor de palavras, ficarei muito honrado com isso. Para mim, a palavra tem esse dom sagrado, é um território onde me parece que posso ter esse alcance divino de nomear o mundo pela primeira vez», começa por dizer Mia Couto, com romance novo, “Jesusalém” (Caminho; ver crítica nesta edição).
O que incomoda o autor é que a análise dos seus livros «seja reduzida ao seu aspecto linguístico, àquilo que é a oficina linguística». Que só existe porque a poesia que quer introduzir, a sua visão do mundo, «nem sempre se pode servir da língua já feita e isso implica que tenha que rearranjar a língua, tenha quase que fundar um idioma». Mia Couto garante nunca fazer uma elaboração forçada para introduzir uma palavra que não tenha cabimento em determinada história. «Essa palavra depois vai encontrar um lugar mais tarde. Parece-me grave tentar encontrar um contexto falseado onde essa palavra possa existir.» Na sala onde conversamos com este moçambicano filho de pais portugueses, no edifício da Leya, em Alfragide, não há vestígios desta luta linguística e o ambiente é até asséptico. De livro na mão, já desfizéramos o equívoco do título há umas semanas, mas ainda há muito quem pense que “Jesusalém” é “Jerusalém”, como o romance que valeu a Gonçalo M. Tavares o Prémio José Saramago em 2005.
para mais um assalto à Língua portuguesa. Não interessa quem
sai vitorioso do ringue mas, para que conste, é quase sempre o escritor.
Porque refaz, parte, inventa o idioma de Camões.
«Se eu ficar conhecido como um inventor de palavras, ficarei muito honrado com isso. Para mim, a palavra tem esse dom sagrado, é um território onde me parece que posso ter esse alcance divino de nomear o mundo pela primeira vez», começa por dizer Mia Couto, com romance novo, “Jesusalém” (Caminho; ver crítica nesta edição).
O que incomoda o autor é que a análise dos seus livros «seja reduzida ao seu aspecto linguístico, àquilo que é a oficina linguística». Que só existe porque a poesia que quer introduzir, a sua visão do mundo, «nem sempre se pode servir da língua já feita e isso implica que tenha que rearranjar a língua, tenha quase que fundar um idioma». Mia Couto garante nunca fazer uma elaboração forçada para introduzir uma palavra que não tenha cabimento em determinada história. «Essa palavra depois vai encontrar um lugar mais tarde. Parece-me grave tentar encontrar um contexto falseado onde essa palavra possa existir.» Na sala onde conversamos com este moçambicano filho de pais portugueses, no edifício da Leya, em Alfragide, não há vestígios desta luta linguística e o ambiente é até asséptico. De livro na mão, já desfizéramos o equívoco do título há umas semanas, mas ainda há muito quem pense que “Jesusalém” é “Jerusalém”, como o romance que valeu a Gonçalo M. Tavares o Prémio José Saramago em 2005.
Veja, a matéria, na íntegra, no link abaixo:
quinta-feira, 18 de abril de 2013
O “MUNDO MISTURADO” DE GUIMARÃES ROSA E MIA COUTO, por Vima Lia Martin
O “MUNDO MISTURADO” DE GUIMARÃES ROSA E MIA COUTO
TITLE: THE “MIXED WORLD” OF GUIMARÃES ROSA AND MIA COUTO
Vima Lia Martin Doutora em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa/USP
Professora de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa/USP e-mail: vima@usp.br
RESUMO: O texto discute particularidades do modo de composição ficcional de Guimarães Rosa e Mia Couto, a partir da aproximação dos contos “A terceira margem do rio” e “Nas águas do tempo”.
PALAVRAS-CHAVE: conto; literatura comparada; Guimarães Rosa; Mia Couto.
ABSTRACT: This paper discuss the particularities of the fictional composition mode used by Guimarães Rosa and Mia Couto from a comparative reading of the short stories “A terceira margem do rio” and “Nas águas do tempo”.
KEYWORDS: short story; comparative literature; Guimarães Rosa; Mia Couto. Nos últimos anos, as obras de Guimarães Rosa e de Mia Couto têm sido aproximadas em vários trabalhos acadêmicos. O próprio autor moçambicano já declarou inúmeras vezes que há convergências significativas entre seus textos e os do escritor mineiro. Especialmente em “O sertão brasileiro na savana moçambicana”, palestra já antológica, proferida na cerimônia de sua nomeação como correspondente da Academia Brasileira de Letras, em 2004, Mia Couto esclarece que a obra roseana lhe mostrou ser possível, por meio da linguagem poética, recriar literariamente um universo marcado por estratos sociais e culturais diversos – no seu caso, a paisagem moçambicana.
Parece-nos que o estabelecimento de pontes que ligam a literatura produzida pelos dois autores é importante por diferentes motivos: porque amplia os horizontes da crítica sobre ambos, porque explicita particularidades do intercâmbio estabelecido entre as literaturas de língua portuguesa, e, porque, em última instância, pode aproximar Rosa dos leitores moçambicanos, e Mia Couto, dos leitores brasileiros.
Neste texto, buscaremos estabelecer alguns paralelos entre o modo de construção ficcional que singulariza as suas obras a partir da aproximação entre dois contos: “A terceira margem do rio”, do livro Primeiras estórias, publicado em 1962, e “Nas águas do tempo”, narrativa que abre Estórias abensonhadas, publicado em 1994, logo depois do fim da guerra civil em Moçambique. Naquela altura, segundo o próprio escritor atesta no texto de abertura do volume, a esperança embalava os homens, e imaginar um Mulemba. Rio de Janeiro, v.1, n. 3, p. 68-74, jul./dez. 2010. futuro menos violento era fundamental para aqueles que haviam sobrevivido ao horror dos combates.
Quando confrontamos os dois textos, logo percebemos uma grande afinidade entre eles, confirmando a hipótese de que Mia Couto escreveu a sua estória a partir da leitura que fez de “A terceira margem do rio”, numa espécie de homenagem ao escritor brasileiro. De fato, a semelhança entre elementos que estruturam os dois contos, ambos narrados em primeira pessoa – por um filho e por um neto –, é flagrante. Num nível mais imediato, o que se nota é uma convergência no modo de criação da linguagem literária. Convergência essa que pode ser justificada, se levarmos em conta as realidades sociais e culturais que a obra dos dois autores se propõe a ficcionalizar.
Segue o artigo, na íntega, em PDF: http://setorlitafrica.letras.ufrj.br/mulemba/download/artigo_3_6.pdf
quarta-feira, 17 de abril de 2013
"Na outra margem da palavra", do JORNAL DO FUNDO, publicado em 26 de abril de 2.012.
Eis aqui, em PDF, um SUPLEMENTO do "JORNAL DO FUNDÃO", em 16 páginas.
Contém diversos e inteligentes artigos que tratam da vida e a obra do escritor:
http://www.cei.pt/pdfdocs/JFundoo_mia_couto.pdf
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
A Confissão da Leoa, novo livro de Mia Couto.
"Todas nós, mulheres, há muito fomos enterradas.
Seu pai me enterrou; sua avó,
sua bisavó, todas fomos enterradas vivas."
Mia Couto – A Confissão da Leoa
Um mundo dividido e hierarquizado em gênero. Quem nasce mulher, nasce menos. Padece de um aborto cultural antes mesmo de desentranhar-se da mãe. Essa é a África do livro “A Confissão da Leoa”, do escritor moçambicano Mia Couto, publicado, no Brasil, pela Companhia das Letras.
Meditar acerca da posição social da mulher “num outro mundo chamado Moçambique” é tarefa que, no primeiro momento, nos dá a falsa e confortável ideia de que as problemáticas das narrativas do romance, ficcionais e de uma cultura que se nos aparenta fabulosa, não nos dizem respeito. Contudo, em todos os lugares do mundo existem mulheres a observarem-se “enterradas vivas”, ante a violência física e moral de que são vítimas.
A história se passa em Kulumani, uma aldeia situada ao Norte de Moçambique, África, em que, afirma o autor “tudo está treinado para morder. As aves abocanham os céus, os ramos rasgam as nuvens, a chuva morde a terra, os mortos usam os dentes para se vingarem do destino.”
Nessa terra encontraremos leões a devorarem pessoas. Seriam leões nascidos de leoas ou leões fabricados por feitiçaria? - Indaga-se. Um caçador é chamado. Sua chegada faz um coração estremecer. É o coração de Mariamar, a que tivera, há tempos, conquistado.
Rituais permeiam o livro. Mulheres são submetidas a um infinito de violências morais de submissão e silêncios, somados à ideia de que jamais pertencerão a si mesmas, sendo meros figurantes e jamais protagonistas de seu destino. Agressões físicas como mutilações de órgãos sexuais e estupro são recorrentes em Kulumani.
O que me apavora é que Kulumani se transporta no espaço e pousa impunimente nos relatórios e estatísticas criminais brasileiros. Também aqui, nascer mulher é quase uma condenação à violência doméstica, onde o soco ou o grito ou o xingamento se alternam com a carícia ou até mesmo com o sexo forçado. Onde a mulher, enclausurada em seu ego massacrado, se sente de algum modo culpada e merecedora da agressão recebida.
Não há que se confundir a luta pela igualdade dos sexos com bandeira sexista. Qualquer violência praticada contra um ser humano está acima do sexismo: merece um discurso humanitário, um apelo à justiça, em nome da dignidade da espécie. É por isso que as leoas rugem.
Essas mulheres, leoas moçambicanas, brasileiras ou de qualquer outra nacionalidade, guardam segredos inconfessáveis. Por vez, por descuido ou por um ato de autorrespeito, confessam, professam sua força. Eis “A Confissão da Leoa”.
NARA RÚBIA RIBEIRO
Seu pai me enterrou; sua avó,
sua bisavó, todas fomos enterradas vivas."
Mia Couto – A Confissão da Leoa
Um mundo dividido e hierarquizado em gênero. Quem nasce mulher, nasce menos. Padece de um aborto cultural antes mesmo de desentranhar-se da mãe. Essa é a África do livro “A Confissão da Leoa”, do escritor moçambicano Mia Couto, publicado, no Brasil, pela Companhia das Letras.
Meditar acerca da posição social da mulher “num outro mundo chamado Moçambique” é tarefa que, no primeiro momento, nos dá a falsa e confortável ideia de que as problemáticas das narrativas do romance, ficcionais e de uma cultura que se nos aparenta fabulosa, não nos dizem respeito. Contudo, em todos os lugares do mundo existem mulheres a observarem-se “enterradas vivas”, ante a violência física e moral de que são vítimas.
A história se passa em Kulumani, uma aldeia situada ao Norte de Moçambique, África, em que, afirma o autor “tudo está treinado para morder. As aves abocanham os céus, os ramos rasgam as nuvens, a chuva morde a terra, os mortos usam os dentes para se vingarem do destino.”
Nessa terra encontraremos leões a devorarem pessoas. Seriam leões nascidos de leoas ou leões fabricados por feitiçaria? - Indaga-se. Um caçador é chamado. Sua chegada faz um coração estremecer. É o coração de Mariamar, a que tivera, há tempos, conquistado.
Rituais permeiam o livro. Mulheres são submetidas a um infinito de violências morais de submissão e silêncios, somados à ideia de que jamais pertencerão a si mesmas, sendo meros figurantes e jamais protagonistas de seu destino. Agressões físicas como mutilações de órgãos sexuais e estupro são recorrentes em Kulumani.
O que me apavora é que Kulumani se transporta no espaço e pousa impunimente nos relatórios e estatísticas criminais brasileiros. Também aqui, nascer mulher é quase uma condenação à violência doméstica, onde o soco ou o grito ou o xingamento se alternam com a carícia ou até mesmo com o sexo forçado. Onde a mulher, enclausurada em seu ego massacrado, se sente de algum modo culpada e merecedora da agressão recebida.
Não há que se confundir a luta pela igualdade dos sexos com bandeira sexista. Qualquer violência praticada contra um ser humano está acima do sexismo: merece um discurso humanitário, um apelo à justiça, em nome da dignidade da espécie. É por isso que as leoas rugem.
Essas mulheres, leoas moçambicanas, brasileiras ou de qualquer outra nacionalidade, guardam segredos inconfessáveis. Por vez, por descuido ou por um ato de autorrespeito, confessam, professam sua força. Eis “A Confissão da Leoa”.
NARA RÚBIA RIBEIRO
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