quinta-feira, 18 de abril de 2013

O “MUNDO MISTURADO” DE GUIMARÃES ROSA E MIA COUTO, por Vima Lia Martin





O “MUNDO MISTURADO” DE GUIMARÃES ROSA E MIA COUTO
TITLE: THE “MIXED WORLD” OF GUIMARÃES ROSA AND MIA COUTO

Vima Lia Martin Doutora em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa/USP
Professora de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa/USP e-mail: vima@usp.br

RESUMO: O texto discute particularidades do modo de composição ficcional de Guimarães Rosa e Mia Couto, a partir da aproximação dos contos “A terceira margem do rio” e “Nas águas do tempo”.

PALAVRAS-CHAVE: conto; literatura comparada; Guimarães Rosa; Mia Couto.

ABSTRACT: This paper discuss the particularities of the fictional composition mode used by Guimarães Rosa and Mia Couto from a comparative reading of the short stories “A terceira margem do rio” and “Nas águas do tempo”.

KEYWORDS: short story; comparative literature; Guimarães Rosa; Mia Couto. Nos últimos anos, as obras de Guimarães Rosa e de Mia Couto têm sido aproximadas em vários trabalhos acadêmicos. O próprio autor moçambicano já declarou inúmeras vezes que há convergências significativas entre seus textos e os do escritor mineiro. Especialmente em “O sertão brasileiro na savana moçambicana”, palestra já antológica, proferida na cerimônia de sua nomeação como correspondente da Academia Brasileira de Letras, em 2004, Mia Couto esclarece que a obra roseana lhe mostrou ser possível, por meio da linguagem poética, recriar literariamente um universo marcado por estratos sociais e culturais diversos – no seu caso, a paisagem moçambicana.
Parece-nos que o estabelecimento de pontes que ligam a literatura produzida pelos dois autores é importante por diferentes motivos: porque amplia os horizontes da crítica sobre ambos, porque explicita particularidades do intercâmbio estabelecido entre as literaturas de língua portuguesa, e, porque, em última instância, pode aproximar Rosa dos leitores moçambicanos, e Mia Couto, dos leitores brasileiros.

Neste texto, buscaremos estabelecer alguns paralelos entre o modo de construção ficcional que singulariza as suas obras a partir da aproximação entre dois contos: “A terceira margem do rio”, do livro Primeiras estórias, publicado em 1962, e “Nas águas do tempo”, narrativa que abre Estórias abensonhadas, publicado em 1994, logo depois do fim da guerra civil em Moçambique. Naquela altura, segundo o próprio escritor atesta no texto de abertura do volume, a esperança embalava os homens, e imaginar um Mulemba. Rio de Janeiro, v.1, n. 3, p. 68-74, jul./dez. 2010. futuro menos violento era fundamental para aqueles que haviam sobrevivido ao horror dos combates.
Quando confrontamos os dois textos, logo percebemos uma grande afinidade entre eles, confirmando a hipótese de que Mia Couto escreveu a sua estória a partir da leitura que fez de “A terceira margem do rio”, numa espécie de homenagem ao escritor brasileiro. De fato, a semelhança entre elementos que estruturam os dois contos, ambos narrados em primeira pessoa – por um filho e por um neto –, é flagrante. Num nível mais imediato, o que se nota é uma convergência no modo de criação da linguagem literária. Convergência essa que pode ser justificada, se levarmos em conta as realidades sociais e culturais que a obra dos dois autores se propõe a ficcionalizar.


 Segue o artigo, na íntega, em PDF: http://setorlitafrica.letras.ufrj.br/mulemba/download/artigo_3_6.pdf

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